Como a tecnologia de inteligência artificial está redefinindo o Judiciário brasileiro

Assesoria de Comunicação, 27.02.2025

Em uma revolução silenciosa, ferramentas de IA são utilizadas pelos Juízes, transformando o tempo em justiça, a eficiência em humanidade e o invisível em impacto real

Nos corredores silenciosos do Judiciário, onde a rotina se desenha entre processos digitalizados e decisões que mudam vidas, há um movimento quase imperceptível, mas avassalador. A tecnologia de Inteligência Artificial não chega com alarde, não ocupa manchetes, nem protagoniza julgamentos. Ela é operada nos bastidores, de forma quase invisível e implacável, alterando os fios sutis que sustentam a engrenagem da Justiça brasileira. Não é um vislumbre do amanhã – é o agora, pulsando entre linhas de código e possibilitando aos Juízes redigir decisões com mais celeridade. 

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contabiliza 140 projetos de ferramentas de IA ativos ou em desenvolvimento nos tribunais do país. Eles não são metáforas do futuro, são realidade. Esses sistemas não apenas agilizam processos, mas criam novas formas de pensar e decidir, sem substituir o olhar humano apenas o potencializando. 

A tecnologia de IA no Judiciário não é um fim em si mesma. É uma ferramenta, mais um farol que auxilia a iluminação dos caminhos, mas que sempre depende das mãos firmes dos Magistrados para conduzir o leme.

REVOLUÇÃO SILENCIOSA 

Em um país onde o excesso de processos desafia qualquer sistema tradicional, a tecnologia de Inteligência Artificial surge como resposta. Ferramentas de IA têm sido implementadas em tribunais de todo o país para otimizar tarefas repetitivas, analisar padrões, sugerir textos e, principalmente, devolver tempo ao Juiz. 

Nos tribunais superiores, como o Supremo Tribunal Federal (STF), ferramentas como Victor analisam milhares de processos em segundos, identificando padrões e propondo encaminhamentos. 

No Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), sistemas como JurisprudênciaGPT, NatJusGPT e LicitaçõesGPT se tornaram aliados indispensáveis no dia a dia de magistrados e servidores. 

Essas ferramentas não decidem. Elas sugerem, organizam a informação. A palavra final continua sendo – e sempre será – humana. 

MAIS TEMPO, MAIS JUSTIÇA 

A Juíza Federal Caroline Tauk é uma das vozes mais importantes no debate sobre o uso ético da IA no Judiciário. Para a Magistrada, a tecnologia de IA não ameaça. “As máquinas são capazes de utilizar a inteligência de dados, mas não a consciência hermenêutica própria do raciocínio humano”, disse. 

A Magistrada explica que a IA atua principalmente na triagem de processos, na sugestão de minutas e na organização de documentos. Tarefas burocráticas que consumiam horas e, muitas vezes, dias agora são feitas em minutos.

Segundo Tauk, com a popularidade adquirida pelas ferramentas de IA generativa, a qualificação dos Juízes e servidores e dos profissionais do Direito em geral irá determinar o uso saudável da tecnologia. 

“Não me parece possível frear o uso da tecnologia de IA dentro do Judiciário, por diversas razões. Magistrados e servidores já a usam no seu dia a dia fora das unidades judiciais. Advogados peticionam com o auxílio da ferramenta de IA generativa e percebemos isso nas petições. Os Tribunais estão se preparando para desenvolver sistemas próprios para auxiliar em resumos de peças processuais, relatórios e ementas, ou seja, atos que não oferecem risco ao jurisdicionado, não lidam com o mérito de decisões e são todos sujeitos à supervisão judicial”, avaliou. 

No Brasil, a formação dos Juízes começa a se ajustar a essa nova realidade. 

“O CNJ passou a prever questões de Direito Digital, dentro da disciplina de Noções Gerais de Direito e Formação Humanística’, nas provas de concursos públicos para ingresso na carreira da Magistratura em todos os ramos do Poder Judiciário nacional. A inclusão dessa matéria ocorreu por meio da Resolução n. 423, de 5.10.2021, do CNJ, que previu os seguintes tópicos dentro do direito digital: 14ª Revolução industrial; Transformação Digital no Poder Judiciário; Tecnologia no contexto jurídico; Automação do processo; Inteligência Artificial e Direito; Audiências virtuais; Cortes remotas; Ciência de dados e Jurimetria; Resoluções do CNJ sobre inovações tecnológicas no Judiciário. 2 Persecução Penal e novas tecnologias; Crimes virtuais e cibersegurança; Deepweb e Darkweb; Provas digitais; Criptomoedas e Lavagem de dinheiro. 3 Noções gerais de Contratos Inteligentes, Blockchain e Algoritmos. 4-LGPD e proteção de dados pessoais”, informou a Magistrada. 

Esse novo repertório não é apenas técnico; é um espelho do tempo que vivemos. O Judiciário não ignora a presença quase onipresente das máquinas, nem a forma como elas reconfiguram o trabalho humano. A Juíza explicou que, para aqueles que já estão na missão jurisdicional, o caminho passa pela atualização constante. “Para quem já está na carreira, são essenciais os cursos de atualização pelas escolas da Magistratura, os quais já têm sido promovidos com qualidade em diversos tribunais”, afirma a Juíza Caroline Tauk. 

Mas há um alerta final que ressoa nas palavras da Magistrada. A Inteligência Artificial não é uma ferramenta simples; ela exige mais do que domínio técnico. Exige um olhar multidisciplinar, uma abertura ao diálogo com áreas como ciência de dados, ética e filosofia. 

“Por fim, pesquisas demonstram que mais de 90% das iniciativas de sistemas de Inteligência Artificial no Judiciário são produzidas por equipes internas, sem participação de universidades ou da iniciativa privada, situação que exige atenção à formação das equipes, diante da natureza multidisciplinar da tecnologia de Inteligência Artificial, bem como a qualificação de Juízes no assunto.” 

O futuro, portanto, já está entre nós. E daqueles que seguram o martelo ele cobra não apenas decisões justas, mas a capacidade de compreender e questionar as lógicas invisíveis que se escondem por trás dos algoritmos. 

RESOLUÇÃO Nº 332/2020 

A Inteligência Artificial chegou ao Judiciário não apenas como uma ferramenta, mas como um desafio ético, técnico e humano. Em agosto de 2020, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou a Resolução nº 332, traçando um mapa para um território ainda em descoberta: como equilibrar agilidade e precisão algorítmica com justiça, ética e humanidade. 

Na essência dessa norma, há um pacto: tecnologia, sim, mas sem esquecer que, no centro de cada decisão judicial, há vidas. O texto se debruça sobre princípios que poderiam ser considerados óbvios, mas que, na era das máquinas, precisam ser reiterados: respeito aos direitos fundamentais, transparência, segurança e responsabilidade. Tecnologia de Inteligência Artificial, sim, mas sem a reprodução silenciosa de preconceitos, sem que a velocidade das respostas sacrifique a profundidade das perguntas. 

A resolução não deixa dúvidas: dados são a matéria-prima dessa nova engrenagem. E eles devem ser seguros, rastreáveis, auditáveis. Cada byte carregado de uma decisão deve ser tratado com o mesmo cuidado que um processo físico, daqueles que ainda dormem empilhados nas prateleiras de fóruns pelo país. A informação, aqui, precisa ser mais do que veloz: precisa ser confiável.

A norma também sinaliza algo crucial: os sistemas precisam ser transparentes. Não basta uma resposta automatizada; é preciso entender como ela foi alcançada. Nenhuma decisão pode ser um enigma. Por trás de cada algoritmo, deve haver rastreabilidade, prestação de contas e a garantia de que não foram as sombras invisíveis do preconceito que guiaram o resultado. 

Há uma camada humana que a ferramenta de IA jamais poderá substituir: a sensibilidade do olhar de um Juiz ao ouvir uma vítima, o silêncio de reflexão antes de uma sentença, a percepção de que justiça nem sempre é lógica. A Resolução nº 332, mais do que uma norma técnica, é um lembrete de que o Judiciário deve se abrir para a tecnologia sem se fechar para a humanidade. 

O JUIZ E O ALGORITMO 

O Juiz Geraldo Dutra (TJPR), Secretário da AMB, tem se destacado no debate sobre o uso das ferramentas de Inteligência Artificial no Judiciário. À frente da Comissão de Aceleração de Inteligência Artificial no Tribunal de Justiça do Paraná, sua atuação reflete uma compreensão clara dos desafios e oportunidades que a tecnologia traz para a justiça brasileira. Para o Magistrado, a tecnologia de IA é como um farol. Ela pode iluminar o caminho, mas o destino depende das mãos humanas no leme. 

“As tecnologias de IA na Justiça são ferramentas de trabalho, que trazem benefícios e riscos, mas não devemos tratá-las como sencientes. O risco é perdermos a dimensão humana da atividade jurisdicional, o que é potencializado pelo uso dessas ferramentas 

Embora possam sugerir textos aceitáveis para casos concretos, essas ferramentas não substituem a necessidade de um Juiz, que julga com empatia e humanismo”, refletiu. 

As ferramentas desenvolvidas no TJPR estão entre as mais avançadas do pais. “A implementação de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR) representa um avanço significativo, pois coloca o Tribunal na vanguarda do uso de tecnologia no Judiciário brasileiro. O TJPR foi pioneiro ao instituir a primeira Política de Utilização de Inteligência Artificial Generativa do país, por meio do Decreto Judiciário nº 421/2024, que estabelece diretrizes claras para o uso ético e responsável dessas tecnologias”, informou. 

O Juiz Geraldo Dutra destacou que a implementação de IA não pode ser apenas tecnológica, precisa ser ética, transparente e supervisionada. 

“Entre os principais desafios desafios éticos, destaca-se a necessidade de garantir que a ferramenta de IA seja utilizada como suporte para os Magistrados, auxiliando na busca por conhecimento e na execução de tarefas repetitivas, sem substituir a construção das decisões judiciais, que permanece uma prerrogativa exclusiva dos Magistrados, o que preserva a integridade e confiança no Sistema de Justiça”, disse. 

DESAFIOS E O FUTURO DA IA NO JUDICIÁRIO 

A tecnologia avança, mas o caminho ainda é longo. Entre códigos e algoritmos, há lacunas que só o olhar humano pode preencher. O Juiz Geraldo Dutra caminha nesse terreno com os pés firmes e os olhos atentos. Ele sabe que, por trás das máquinas que prometem agilidade e precisão, existem desafios que não podem ser ignorados. 

Um desses desafios é a capacitação. A tecnologia só seria verdadeiramente eficaz quando os Magistrados souberem interpretá-la, questioná-la, dominá-la. Não basta usar a ferramenta de IA; é preciso entendê-la. 

A governança surge como o eixo central desse equilíbrio. As políticas precisam ser claras, as diretrizes precisam ser seguras, e a supervisão, constante. A Inteligência Artificial não pode se tornar um corpo autónomo, solto no vazio. 

E há, por fim, a segurança de dados. No coração do Judiciário, repousam informações sensíveis, vidas inteiras resumidas em páginas e anexos. Proteger esses dados não é apenas uma exigência técnica é um compromisso ético. 

O Conselho Nacional de Justiça (CNI) tem se movido com precisão. Resoluções atualizadas, capacitação constante, orientação clara. Mas, no centro desse movimento, está o ser humano.

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ENTREVISTA

GERALDO DUTRA DE ANDRADE NETO

1. A criação da Comissão de Aceleração de Inteligência Artificial no TJPR representa um avanço significativo. Quais são, na sua visão, os principais desafios éticos e operacionais que o Tribunal deverá enfrentar com a implementação de ferramentas de IA, como o Microsoft 365 Copilot, no cotidiano das atividades judiciais? 

Acredito ser conveniente iniciar com uma observação importante. Nossa comunicação tem personalizado as tecnologias de IA, e a forma como nos expressamos é relevante. As tecnologias de IA na Justiça são ferramentas de trabalho que trazem benefícios e riscos, mas não devemos tratá-las como sencientes. O risco é perdermos a dimensão humana da atividade jurisdicional, o que é potencializado pelo uso dessas ferramentas. Embora possam sugerir textos aceitáveis para casos concretos, essas ferramentas não substituem a necessidade de um Juiz, que julga com empatia e humanismo. 

A implementação de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJPR) representa sim um avanço significativo, pois coloca o Tribunal na vanguarda do uso de tecnologia no Judiciário brasileiro. O TJPR foi pioneiro ao instituir a primeira Política de Utilização de Inteligência Artificial Generativa do país, por meio do Decreto Judiciário nº 421/2024, que estabelece diretrizes claras para o uso ético e responsável dessas tecnologias. 

Entre os principais desafios éticos, destaca-se a necessidade de garantir que a ferramenta de IA seja utilizada como suporte para os Magistrados, auxiliando na busca por conhecimento e na execução de tarefas repetitivas, sem substituir a construção das decisões judiciais, que permanece uma prerrogativa exclusiva dos Magistrados, o que preserva a integridade e confiança no Sistema de Justiça.

Operacionalmente, o desafio reside em integrar essas ferramentas de maneira eficaz e segura no fluxo de trabalho existente. O TJPR tem se esforçado para criar ambientes seguros, nos quais os Magistrados possam atuar com a garantia de que seus dados não serão retroalimentados aos fornecedores de serviços, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). 

2. Considerando que as ferramentas de Artificial estão cada vez mais Inteligência Artificial presentes em processos judiciais, como o senhor avalia a possibilidade de que algoritmos possam, em algum momento, influenciar ou até mesmo substituir determinadas atividades desempenhadas por Magistrados? Até que ponto o senhor acredita que essa automação pode impactar a autonomia decisória? 

As ferramentas de Inteligência Artificial têm se consolidado como um valioso auxílio às atividades judiciais, especialmente em tarefas operacionais e repetitivas. No TJPR, iniciativas 0 JurisprudenciaGPT, o NatJusGPT, LicitaçõesGPT e o Banco de Robôs com ferramentas de IA exemplificam esse avanço. Essas ferramentas foram reconhecidas internacionalmente, tendo o JurisprudenciaGPT conquistado o 2º lugar no 2024 Gartner Eye on Innovation Awards for Government in Americas, por sua capacidade de auxiliar Magistrados na busca por conhecimento necessário, sem criar conteúdos ou influenciar decisões. 

O JurisprudenciaGPT é uma ferramenta de Inteligência Artificial desenvolvida tendo consideração as publicações do conjunto da jurisprudência dos tribunais brasileiros, e é refinada para tirar o máximo proveito do conhecimento jurídico e da da aplicação da lei, constantes do acervo jurisprudencial. A ferramenta tem a capacidade de desenvolver respostas a perguntas em linguagem natural, com base em precedentes e súmulas, oferecendo suporte na pesquisa jurídica. 

Já o NatjusGPT foi desenvolvido para otimizar a pesquisa no sistema de notas técnicas na área da saúde, proporcionando acesso mais rápido e eficiente aos documentos publicados no Sistema e-Natjus. O LicitaçõesGPT, por sua vez, foi criado para auxiliar no acompanhamento e na análise de processos licitatórios, de modo a garantir maior transparência e eficiência na gestão pública, utilizando exclusivamente decisões do TCE/PR e do TCU, além da nova lei de licitações. 

O Banco de Robôs de IA integra diversas ferramentas de IA generativa, permitindo a realização de tarefas rotineiras de maneira mais rápida e precisa. Dessa forma, liberam-se os Magistrados para se concentrarem em atividades intelectualmente mais exigentes. 

É importante destacar que essas ferramentas não substituem a atividade decisória dos Magistrados. Eles servem como suporte, pois facilitam o acesso a informações relevantes e permitem que os Magistrados se concentrem em análises jurídicas mais complexas. A autonomia decisória permanece intacta, visto que a construção das decisões judiciais continua sendo uma prerrogativa exclusiva dos Magistrados, que são responsáveis pelo conteúdo e pelos efeitos de suas sentenças. 

3. A implementação de ferramentas de IA no Judiciário deve ocorrer de maneira responsável e segura. Como o TJPR está se preparando para garantir que o uso dessas tecnologias respeite o princípio da imparcialidade, evitando, por exemplo, o risco de vieses algorítmicos que possm comprometer a justiça das decisões? 

Foi instituída a Política de Utilização de Inteligência Artificial Generativa por meio do Decreto Judiciário n. 421/2024. Essa política estabelece diretrizes claras para o desenvolvimento e a aplicação de ferramentas de IA e enfatiza a necessidade de transparência, equidade e responsabilidade no uso dessas tecnologias. 

A nossa política de uso de ferramentas de IA no Judiciário preserva a confiança na integridade do trabalho dos Juízes, embora não haja exigência de que os Juízes informem nas decisões sobre o uso de ferramentas de IA. Isso porque a complexidade dos algoritmos, compreensíveis para poucos, torna controversa uma tal obrigação, que, além de difícil cumprimento e verificação na prática diária, servirá apenas para gerar novos questionamentos recursais, inevitavelmente atrasando o desfecho do processo. Uma medida assim pode minar a confiança pública no sistema de justiça como um todo, da qual depende a independência e a preservação da autoridade legítima dos Juízes. O mais importante é garantir, por meio de princípios éticos e normas legais – já existentes no caso brasileiro, que a função jurisdicional não seja delegada a sistemas automatizados que utilizam ferramentas de IA. 

Convém mencionar que o TJPR Comissão Aceleração de Inteligência Artificial e que atua na supervisão e orientação das iniciativas relacionadas à tecnologia de IA no âmbito do Tribunal. Essa comissão é responsável por monitorar o desenvolvimento e a implementação de sistemas de IA e garantir que estejam alinhados aos princípios éticos e legais, e que passem por avaliações contínuas.

Vale ressaltar que o TJPR está ativamente engajado na contratação de soluções tecnológicas que ofereçam ferramentas seguras e confiáveis aos Magistrados. Ao adotar sistemas desenvolvidos internamente ou em parceria com fornecedores que atendam aos rigorosos padrões éticos e de segurança estabelecidos pelo Tribunal, busca-se minimizar a influência de eventuais riscos presentes em ferramentas de uso pessoal. Essa abordagem garante que os Magistrados disponham de recursos tecnológicos em conformidade com os princípios institucionais do Tribunal. 

É importante ressaltar a necessidade de preservação da autonomia do Judiciário no desenvolvimento de suas próprias soluções, uma vez que a Justiça não pode se tornar dependente de artefatos controlados por outros poderes do Estado, sob pena de se fragilizar perante pressões indevidas e vulnerar a independência judicial. 

4. A introdução das ferramentas de IA no Judiciário traz uma perspectiva de eficiência significativa. No entanto, como assegurar que essa busca por agilidade não resulte em distanciamento das particularidades um e sensibilidades humanas que são fundamentais na administração da justiça? 

Para garantir que a busca por agilidade não resulte em distanciamento das particularidades humanas, o TJPR enfatiza a supervisão humana constante no uso de ferramentas de IA generativa. Os Magistrados mantém a responsabilidade exclusiva pelas decisões judiciais, utilizando a IA apenas como suporte, sem delegar qualquer fase do julgamento dos processos, o que é uma exigência constitucional, dado o princípio da indelegabilidade da jurisdição. 

Reconhecendo a importância da supervisão humana, o TJPR investe continuamente em treinamentos por meio do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (TJPRlab) e da Secretaria de Tecnologia da Informação (Seti). Os programas de capacitação abordam aspectos técnicos e questões éticas e legais. Dessa forma, garante-se que os Magistrados estejam preparados para integrar a tecnologia em suas rotinas sem perder de vista a sensibilidade necessária ao exercício da justiça. 

Para além disso, o TJPR implementa políticas claras que estabelecem diretrizes de uso responsável das ferramentas de IA, reforçando que a tecnologia deve servir como apoio e não como substituto do discernimento humano. 

5. A ferramenta Microsoft 365 Copilot está sendo testada para tarefas como transcrição e resumo de audiências. Em sua opinião, quais são os principais benefícios que essa tecnologia pode trazer para a rotina dos Magistrados e servidores, e quais são os possíveis riscos que devem ser monitorados durante essa fase de testes? 

A implementação do Microsoft 365 Copilot no TJPR oferece diversos benefícios para a rotina dos Magistrados e servidores. Além de transcrever e resumir audiências, o Copilot integra-se a aplicativos como Word, Excel, PowerPoint, Outlook e Teams, proporcionando funcionalidades que otimizam o trabalho diário. No Word, auxilia na elaboração e edição de documentos, no Excel, facilita a análise de dados, no PowerPoint, contribui para a criação de apresentações; no Outlook, ajuda na gestão de e-mails, e no Teams, aprimora a colaboração em reuniões virtuais. Essas capacidades permitem que os Magistrados se concentrem em atividades intelectuais. 

Reconhecendo esses benefícios, o TJPR adquiriu 6.138 licenças Microsoft 365 Copilot para Magistrados e assessores. Assim, pretende-se garantir uma ferramenta institucional segura e confiável. Essa iniciativa tem por escopo modernizar e otimizar os processos de trabalho, proporcionando maior eficiência e agilidade no atendimento às demandas da população 

Durante a fase de testes, é fundamental monitorar possíveis riscos associados ao uso das ferramentas de IA. Entre eles, destacam-se a dependência excessiva da tecnologia; a necessidade de garantir a precisão das transcrições e dos resumos gerados; e a proteção de dados sensíveis, de modo a buscar a conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Para mitigar esses riscos, o TJPR investe em treinamentos contínuos. 

6. Em um cenário de crescente utilização das ferramentas de Inteligência Artificial, como o Tribunal está lidando com a questão da proteção e segurança de dados sensíveis, especialmente considerando o grande volume de informações judiciais confidenciais que transitam por essas ferramentas? 

O Tribunal adota medidas rigorosas para proteger a confidencialidade dos dados sensíveis que transitam pelas ferramentas de IA. As interações realizadas pelos Magistrados por meio de ferramentas institucionais são regidas por contratos de segurança que garantem que os dados não sejam utilizados para aprendizado externo ao Tribunal, nem repassados aos fornecedores de serviço. Essa abordagem permite que as informações processadas permaneçam sob controle exclusivo do TJPR, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

7. O senhor acredita que a adoção dessas tecnologias no âmbito do Judiciário brasileiro poderá influenciar a formação e capacitação dos futuros Magistrados, que talvez precisem desenvolver competências tecnológicas, além das jurídicas tradicionais? 

Sim, a adoção crescente de tecnologias no Judiciário brasileiro certamente influenciará a formação e capacitação dos futuros Magistrados e de quem já exerce a função jurisdicional. A evolução tecnológica ocorre de forma célere em todas as áreas profissionais, inclusive na Magistratura. O aprendizado tecnológico deve ser uma constante para a melhoria contínua das condições de trabalho e das entregas para a sociedade. No contexto jurídico, a integração de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e outras inovações tecnológicas exige que os Magistrados desenvolvam competências além das jurídicas tradicionais, como habilidades em tecnologia da informação, análise de dados e compreensão dos sistemas de IA. 

8. Por fim, considerando o período de testes que será conduzido por Magistrados e servidores, quais são os principais critérios que considera essenciais para a avaliação do custo-benefício do uso da tecnologia de Inteligência Artificial no TJPR? E como será possível medir o impacto real dessas ferramentas na prestação jurisdicional? 

Uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revelou que 27% dos Magistrados e 31% dos servidores utilizam ferramentas de IA em suas atividades profissionais. Esses dados indicam ganhos em produtividade intelectual ao equilibrar tarefas operacionais com o suporte da tecnologia de IA. 

Para avaliar o custo-benefício do uso da tecnologia de IA no TJPR, alguns critérios essenciais são considerados. Primeiramente, a eficiência operacional, medida pela redução no tempo gasto em tarefas repetitivas e administrativas. Em segundo lugar, a qualidade das decisões. Este critério avalia se o suporte da tecnologia de IA contribui para decisões mais fundamentadas e consistentes, sem comprometer a autonomia e o discernimento do Juiz. 

Para medir o impacto real dessas ferramentas na prestação jurisdicional, o TJPR pode implementar diversas ações. O monitoramento contínuo é essencial, uma vez que, a partir dessa prática, acompanham-se indicadores de desempenho antes e depois da implementação da IA, como tempo médio de tramitação de processos e volume de casos concluídos. Pesquisas de satisfação também são importantes, realizando levantamentos periódicos com Magistrados, servidores e jurisdicionados para avaliar a percepção sobre a eficiência e a qualidade dos serviços prestados. 

Com essas medidas, o Judiciário poderá avaliar de forma abrangente o impacto das ferramentas de IA na prestação jurisdicional 

Encerro agradecendo ao Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), o Juiz Frederico Mendes Júnior, pela oportunidade dada para esta entrevista na importante revista AMB+, parabenizando-o pela gestão sempre focada na defesa dos direitos e prerrogativas da Magistratura nacional. 

Agradeço, ainda, ao Presidente do Tribunal de Justiça, Desembargador Luiz Fernando Tomasi Keppen, pela confiança demonstrada ao me nomear para o Conselho do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Tribunal de Justiça (TJPRlab) e para exercer a função de Presidente da Comissão de Aceleração da IA no TJPR. O Presidente Keppen tem sido um entusiasta da utilização responsável das ferramentas de IA no Judiciário. 

Faço aqui, também, menção à extensa equipe que trata desses assuntos no Tribunal de Justiça, destacando a Juíza de Direito Jurema Carolina Gomes, minha companheira de Conselho no Laboratório de PDI, e os servidores Leonardo de Andrade Ferraz Fogaça, Coordenador do Laboratório de PDI, e Rafael Coninck Teigão, Secretário de Tecnologia da Informação do TJPR. Se houve sucesso no desenvolvimento de ferramentas de IA no TJPR, isso se deve ao esforço conjunto de todos. Obrigado.

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